UM AMOR QUE CONTINUA

Sou seguidor do  blog dos voluntários de São Paulo (movimento dos Focolares) e sempre leio o que é postado ali, porém hoje encontrei um artigo que vem ao encontro do que estou experimentando nos últimos três dias, com a partida da minha querida amiga/irmã Sandra. Na verdade, os últimos 17 meses não tem sido fáceis. Desde o falecimento do meu pai, em 18 de junho de 2010, venho refazendo uma avaliação diária do modo de proceder com a vida e com os mortos. Uma coisa é ter conhecimento do que é perder, outra é fazer a experiência da perda. De uma hora para outra começamos a nos avaliar, a questionar cada instante e até mesmo brigar com Deus. Contudo, nada pode ser explicado, senão em Deus, que é Senhor dos vivos e dos mortos. Se você já fez a experiência da perda de um ente querido, sabe o que estou dizendo, se não fez, não tenha medo, Deus é maior que tudo e em nenhum momento lhe desampara. Porém, uma coisa é certa, a dor permanece até que saibamos reconhecer o que na verdade é a morte: um amor que continua.  Pe. David de Jesus

Segue na integra o texto que encontrei no blog dos focolarinos de São Paulo, lhe convido a fazer um bom proveito:

 “Quando algum amigo nosso, ou parente, parte para a Vida Eterna, dizemos que “desapareceu”, consideramo-lo perdido.

Mas não é assim. Se raciocinarmos deste modo, onde está a fé na comunhão dos santos?

Ninguém que entra em Deus se perde, porque, se alguma coisa tem realmente valor no irmão, que agora possui a vida [que] não [lhe] é tirada, mas transformada”16, esta é a caridade. É assim mesmo, porque tudo passa. Na cena deste mundo, até mesmo a fé e a esperança passam. A caridade permanece (cf. 1 Coríntios 13,8).

Ora, o amor que nosso irmão nos dedicava, amor verdadeiro porque radicado em Deus, este perdura. E Deus não é tão pouco generoso conosco, a ponto de nos tirar o que Ele mesmo, no irmão, nos havia dado.

Agora Ele no-lo dá de outra maneira. Aquele irmão, aqueles irmãos continuam a nos amar com uma caridade que agora não sofre mais altos e baixos.

Cabe a nós acreditar nesse amor dos nossos irmãos, e pedir a eles graças para nós que estamos a caminho, enquanto por eles fazemos a nossa parte com a obra de misericórdia que manda rezar pelos mortos.

Não, não perdemos os nossos irmãos. Eles estão do lado de lá, como se tivessem saído de casa para ir a um outro lugar.

Eles vivem na pátria celeste, e através de Deus, em quem estão, podemos continuar nos amando mutuamente, como ensina o Evangelho”.

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16 Prefácio da missa dos fiéis defuntos, I.

 Fonte: http://voluntariosdesaopaulo.blogspot.com/2011/11/um-amor-que-continua.html

ESTE DEUS DESCONHECIDO

Quando o barquinho da vida faz água e a tempestade o ameaça, pronunciamos um nome que aflora aos lábios de quem sofre, até mesmo no derradeiro suspiro: mãe.

Não denota sempre a mãe terrena; aliás, para a pessoa um pouco familiarizada com as coisas eternas, significa Maria.

Isto é tão real que, freqüentemente, “mãe” é o grito dos corações de Deus nos momentos da provação. “Mãe!”

Eis aqui o segundo milagre de amor, depois da redenção: um Deus encanado e uma Mãe para todos.

Nela, toda a esperança para o cristão.

Muitas vezes ocorre-nos perguntar: como fez Maria para viver na terra, sem perder, nas longas agonias do seu coração traspassado, chamar uma, a Mãe? E o enxerto direto de seu espírito com Deus mostra o esplendor único, a grandeza, a singularidade daquela que é “elevada mais do que criatura”. Deus – sem dúvida – como para nós, e bem mais, foi o consolo do seu coração.

É possível que ela amasse alguém que lhe configurasse com mais propriedade – como para nós ela mesma, Maria – a identificação com o amor? Imagino que algo parecido e mais, infinitamente mais, do que encontramos em Maria, tenha ela – em sua labuta terrena a serviço do Pai, ocupando-se do filho -, encontrado repouso e refrigério, força e audácia, capacidade de viver, quando outras mortes a teriam esmagado, n’Aquela que sustentou a Igreja em sua época e em todas as épocas: o Espírito Santo.

O Espírito Santo, ente Deus desconhecido, que, em nossa prestação de contas final, perceberemos, com infinito pesar, não termos talvez suficientemente amado, e venerado, e agradecido.

Ele, a alma do corpo místico de Cristo, a firmeza dos mártires de todos os tempos, a fluência das águas vivas de todo sábio, a luz dos enviados de Deus, a certeza dos papas, o mestre dos bispos, o amigo dos ministros, o perfume das virgens.

Ele conviveu com a imaculada encontrando as suas delícias em plasmar, escondido, a flor das flores, e Maria, n’Ele e por Ele, elevou o anseio traduzido pelo coração humano com o doce termo “Mãe” à altura mesma de Deus.

 

Chiara

O SILÊNCIO DE DEUS

É um assunto difícil, o mais difícil de enfrentar diante de pessoas pertencentes a um povo que, mais do que qualquer outro, experimentou neste século de sofrimento a dor indescritível da Shoah[1] , a terrível tragédia que levou um de seus grandes pensadores a cunhar a metáfora do “Eclipse de Deus”, pois Auschwitz[2] colocou em discussão a própria fé.

(…) Não foram os duros tempos de guerra que nos levaram a refletir sobre a dor.

Pelo contrário, devemos afirmar que a fé no amor de Deus era tão luminosa e gratificante, que fazia desaparecer para nós os horrores da guerra, embora vivêssemos no meio de todos, compartilhando as tragédias de quem estava ao nosso lado.

Um dia a nossa atenção foi atraída por aquele grito em aramaico de Jesus na cruz: “Eli, Eli, lemá sabactáni?”, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, que é o início do Salmo 22. Alguém nos dissera que tinha sido a expressão da maior dor de Jesus, pois, abandonado por todos, sentiu-se abandonado também pelo Pai.

Este fato nos fez refletir.

Como o Pai permitiu que Jesus experimentasse uma dor tão grande? Ele não amava infinitamente seu Filho? Então entendemos: ele permitiu isso porque havia um desígnio de amor particular sobre Jesus.

Ele devia sofrer por todos os homens e depois ressuscitar.

E os homens que acreditassem nele ressurgiriam com ele.

Jesus, elevado ao céu, gozaria por toda a eternidade também por aquilo que fizera na terra.

Assim, para nós, a dolorosa história humana de cada um foi iluminada pela história de Jesus.

Nós também somos filhos de Deus.

Também para nós existe um esplêndido desígnio.

Vale a pena sofrer para realizá-lo.

Penso que a tradição e a história do povo judeu não sejam alheias à meditação sobre a dor que Jesus experimentou.

Impressionou-me um trecho do Talmude[3] : ´Quem não experimenta o “ocultar-se” de Deus, não faz parte do povo judeu (Tb, Hagigah 5b). Toda a história hebraica, desde Abraão, é pontilhada por momentos e situações que parecem marcados pelo “ocultar-se da face de Deus”. Não é sem motivo que os Salmos, muitas vezes, exprimem a angústia pela experiência feita quando “Deus escondeu a sua face”.

Mas, o “ocultar-se” de Deus não significa ausência de Deus.

Talvez nesta terra permanecerá sempre um mistério o motivo pelo qual Deus permitiu essa escuridão.

Mas o eclipse passa.

A Shoah, esse trauma que marcou a história da humanidade, e não só do povo judeu, não foi a vitória definitiva do mal.

Então, é possível o surgimento de uma nova vida? É possível que a face de Deus apareça novamente depois de um eclipse tão terrível? Com esta esperança, “a memória”, que é tão importante, pode servir para dar um novo rumo à história e para construir um mundo novo.

A minha oração e os meus votos são: que se recorde a Shoah cada vez mais como uma passagem, como o fim de uma época e o início de outra, nova, justamente porque Deus nunca revogou a aliança com seu povo.

E nós estaremos todos os dias ao lado de vocês, neste caminho que também é nosso.

Chiara Lubich[4]

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[1] Shoah: tentativa, por parte do regime nazista, de exterminar o povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial, também conhecido como Holocausto .

[2] Auschwitz: campo de extermínio na Polônia, protótipo dos campos de concentração nazistas.

[3] Talmude: doutrina e jurisprudência da lei mosaica.

[4] Chiara Lubich responde a uma pergunta feita por judeus participantes do Movimento dos Focolares sobre o significado da dor.

Fonte: Voluntários de São Paulo in: http://voluntariosdesaopaulo.blogspot.com/2011/03/o-silencio-de-deus.html

OLHAR TODAS AS FLORES

Os cristãos, que almejam à perfeição, geralmente, buscam a união com Deus presente em seus corações.

Encontram-se como em um grande jardim florido, onde olham e admiram só uma flor. Olham-na com amor, nos detalhes e no todo, mas não prestam tanta atenção às demais flores.

Deus — graças à espiritualidade coletiva que nos deu — pede que olhemos todas as flores, pois em todas ele está. Assim, observando-as todas, é a ele que amamos, mais do que a cada uma das flores. Deus, que em mim reside, que a minha alma plasmou, que, sendo Trindade, nela repousa, também reside no coração dos irmãos.

Portanto, não basta que eu o ame só em mim. Se é assim que faço, meu amor ainda mantém um quê de pessoal e está inclinado ao egoísmo perante a espiritualidade que sou chamado a viver. Amo Deus em mim e não Deus em Deus, porquanto a perfeição é: Deus em Deus.

Por conseguinte, a minha cela — como dizem as almas íntimas de Deus — o meu céu — como dizemos nós — está em mim e, do mesmo modo que está em mim, está na alma dos irmãos. E, como o amo em mim, ao recolher-me nesse meu céu quando estou só, amo-o no irmão quando ele está junto de mim.

Então, não amo somente o silêncio, amo também a palavra, isto é, a comunicação de Deus em mim com Deus no irmão. Se os dois céus se encontram, existe aí uma única Trindade, em que os dois estão como o Pai e o Filho e, entre eles, o Espírito Santo.

É necessário, sim, recolher-se sempre, inclusive na presença do irmão sem, contudo, esquivar-me da criatura, mas recolhendo-a no meu próprio céu e recolhendo-me no céu dela.

Dado que esta Trindade reside nos corpos humanos, aí reside Jesus, o Homem-Deus.

E entre nós dois realiza-se a unidade, na qual somos um, sem, no entanto, estarmos sós. E aqui está o milagre trinitário e a beleza de Deus que não está só porque é Amor.

Quando, então, a alma, o dia inteiro, de bom grado perdeu Deus em si, a fim de se transferir para Deus no irmão (porque um equivale ao outro, como duas flores daquele jardim são obra do mesmo Criador), e assim tiver feito por amor a Jesus crucificado e abandonado, que perde Deus por Deus (e justamente Deus em si por Deus presente ou nascituro no irmão…), ao voltar-se a alma a si mesma, ou melhor, para Deus em si (porque estando só, recolhida na oração ou na meditação), reencontrará a carícia do Espírito Santo que — sendo Amor — é Amor verdadeiro, pois Deus não pode faltar à sua palavra e dá a quem deu; dá amor a quem amou.

Desse modo, desaparecem as trevas e a infelicidade junto com a aridez e todas as coisas amargas, perdurando apenas o gáudio pleno prometido a quem tiver vivido a Unidade.

O ciclo está completo.

Devemos dar vida continuamente a estas células vivas do Corpo Místico de Cristo, que são os irmãos unidos em seu nome, para reavivar todo o Corpo.

Olhar todas as flores é ter a visão de Jesus, de Jesus que, além de ser a Cabeça do Corpo Místico, é o tudo: toda a Luz, a Palavra, enquanto desse Corpo somos apenas palavras. Todavia, se cada um de nós se “perde” no irmão e forma com ele uma célula (célula do Corpo Místico), que se torna Cristo total, Palavra, Verbo. É por isso que Jesus diz: “…Eu lhes dei a glória que Tu me deste…” (Jo 17,22).

Mas é preciso saber perder Deus em si mesmo por Deus nos irmãos. Faz isto quem conhece e ama Jesus crucificado e abandonado.

E quando a árvore estiver toda coberta de flores —quando o Corpo Místico estiver completamente reavivado —  refletirá a semente da qual nasceu. Será una, porque todas as flores serão unas entre si, da mesma forma que cada um é uno em si mesmo. Cristo é a semente. O Corpo Místico é a copa.

Cristo é o Pai da árvore. Jamais foi tão Pai como no abandono em que nos gerou filhos seus; é no abandono que ele se anula, mas permanece: Deus.

O Pai é raiz para o Filho. O Filho é semente para os irmãos.

E foi também Maria, a Desolada, no consentimento tácito que a faz Mãe de outros filhos, co-redentora, quem lançou esta semente no céu; e a árvore floriu e floresce de contínuo na terra.

Chiara Lubich

 

In: (Abba — Revista de Cultura — Volume 1- número 2, 1998)

SABE TUDO

Jesus sabe tudo. Lê em todos os corações, em todos os pensamentos.

Como é consolador para nós quando, do mais profundo da alma, elevamos a Deus súplicas ou louvores ou atos de amor. Ele os ouve, Ele os conhece.

Uma página do Evangelho diz que Ele sabia todos os pormenores a respeito de Tomé: desde os dedos que ele queria colocar nas chagas provocadas pelos cravos, até a mão na ferida do lado.

Jesus, Deus, sabe tudo.

Que consolo para quem reza! Seremos ouvidos, portanto. Isto nos basta. Se depois formos atendidos ou não, isto é outra coisa: Ele sabe aquilo que é bom para nós.

Tomé responde com as magníficas palavras:

“Meu Senhor e meu Deus!” e são as que brotariam espontaneamente do nosso coração ao lermos aquela passagem evangélica.

Chiara Lubich

Fonte: http://voluntariosdesaopaulo.blogspot.com/2011/03/sabe-tudo.html

O APÓSTOLO

Quando o amor de Deus entra numa alma não pode deixar de se difundir. É como o fogo que, se existe, não pode deixar de arder e consumar em outro fogo aquilo que consome. Este fogo é Jesus presente na alma com a Sua graça e se exprime em amor aos irmãos. Este fogo é a expressão de uma unidade atingida com Deus e com os irmãos que são animados dos mesmos sentimentos.

Este amor não se cansa nunca de trabalhar pelos outros, de servir em nome de Cristo a todos. Serve aconselhando e matando a fome, admoestando e suportando, instruindo e hospedando; sabe sempre o que fazer por quem lhe passa ao lado.

Quem ama por Deus, somente pelo fato de que ama, comunica aos irmãos Deus que tem em si. Quem ama assim não tem medidas, mas está pronto até dar a própria vida pelos outros. Este é o amor que conquista, este é o amor que faz de cada cristãos um apóstolo.

O apóstolo tem no coração uma só paixão: levar Deus às almas. Para isso usa todos os meios, desfruta todos os talentos que possui. Como um comerciante que interessado em um terreno o compra, o apóstolo não deixa passar ninguém ao seu lado sem confia-lo aos cuidados de Deus e estuda a possibilidade de ser-lhe útil em alguma coisa porque o amor gera o amor, a vida gera outra vida.

O apóstolo sabe ser tudo para todos, sabe apresentar-se a todas as pessoas e em todos os ambientes: a o rico e ao pobre, ao culto e a criança, porque quer levar Cristo a todos. Leva em consideração a parte humana, os talentos, e a parte divina, porque sabe que com esta e sem aquela não se conseguiria sempre doar Deus ao irmão.

Como o agricultor que possuindo um terreno se lança pacientemente a prepara-lo para semear, assim também o apóstolo prepara o terreno nas almas antes de doar a elas a sua palavra e o prepara com a demonstração constante de um amor atencioso e sem medidas.

Não se substitui nunca a quem é mestre por mandato divino e não impõe a verdade, porque a verdade exige, por si mesma, um respeito profundo de cada pessoa, nem se faz pai de alguém porque sabe que o Pai é um só: aquele que está nos céus.

Mas quando o terreno está pronto, quando o irmão tem sede de verdade, quando não existem mais explicações de “vida” para se dar, o apóstolo lança a semente, a palavra, que tem em si, neste instante, a força da vida.

Então a palavra convence porque apoiada sobre o testemunho.

Ele sabe neste momento que apenas iniciou o trabalho. E o apóstolo não abandona quem apenas recebeu a vida, mas segue nas batalhas de cada dia com empenho sempre renovado e vivo até quando vê que o irmão sabe estar de pé bem no próprio caminho o segue ainda até quando Cristo tomou morada nele estável, e depois ainda até quando terá atingido a plenitude da sua idade.

Age como se tudo dependesse dele somente, sabendo que tudo depende só de Deus.

O apóstolo trabalha para que o irmão encontre um lugar na casa do Pai. Existe um desígnio de Deus que deve abrir-se sobre cada um, para que possa desenvolver a sua missão que, desenvolvida dará nova beleza a Igreja.

Assim para com todos, assim sempre.

O apóstolo não considera nunca acabado o seu papel na vinha do Senhor, nem para observar aquilo que já operou. Quanto mais conquista, mais gostaria de conquistar porque o fogo que tem em si se alimenta amando e se torna gigante comunicando. Porque o seu amor tem uma medida: é aquela de Jesus que pediu ao Pai: “QUE TODOS SEJAM UM COMO EU E TU”.

A VAIDADE

Percorrendo as ruas das nossas cidades, temos a impressão dolorosa de que a vaidade nelas caminha encarnada. Encarnada em algo que cobre as paredes e descobre as pessoas, numa imodéstia que asfixia e numa falta de estética que faz sofrer.

Então, como que atraídos pelo calor de um fogo num rigoroso inverno, nos refugiamos numa Igreja, onde a chama vermelha indica que Ele ali habita.

E nos apercebemos de que, se na rua parecia que a vaidade tomava corpo, a real presença de Deus, evocando anjos e santos que com Ele já vivem, e nossos entes queridos que passaram para a outra vida, no abraço do Senhor, são as verdadeiras realidades na Realidade.

De modo que o mundo se tomou ainda uma vez escabelo para o Único que “é”, do mesmo modo como o inferno faz resplandecer o Paraíso.

Chiara Lubich

Fonte: http://voluntariosdesaopaulo.blogspot.com/2011/02/vaidade.html

 

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